Escuro.
Hesitante, atravessei a sala desprovida de luz. Eu que tenho medo e não gosto do escuro, do silêncio e imensidão que este encerra, atravessei o grande compartimento por ti. Por uma porta entreaberta, vi-te sentado a um canto como quem espera por uma ajuda no desconhecido. Mesmo tendo medo, eu entrei e toquei-te ao de leve procurando saber se precisavas de alguma coisa, se precisavas e se aceitarias que eu te desse o que obviamente te faltava. Automaticamente, os teus braços cansados responderam à questão que eu timidamente me colocara e eu soube que estaria presente até ao fim, até tu deixares de precisar de mim.
Todavia, enquanto atravessámos o espaço que nos separava de tudo o resto, algo mudou. O ar tornou-se mais pesado, a temperatura mais incerta, os passos mais imprecisos. Numa só palavra, tornei-me vulnerável.
Ao atravessar a porta esqueci-me das minhas defesas, esqueci-me do que era ser magoada e deixei que tu levasses grande parte de mim. Tu precisavas de alguém que estivesse contigo e eu deixei-me ser essa pessoa. Apesar do sentimento de vulnerabilidade e fraqueza que agora me assola, sei que se pudesse voltar atrás estaria presente de qualquer maneira.
Não posso agora deixar de pensar que entrei no compartimento errado, da pessoa errada. Por mais que me custe admitir, magoaste-me. Odeio-te por isso. Deixasses que eu me mostrasse, que me abrisse, que não me escondesse por trás de máscaras ou por meio de artificios e danificaste algo de muito frágil. O meu orgulho e algo mais que eu não consigo definir em meras palavras.
Quero não querer gostar. É só isso. Porque é que tem que ser tão difícil?
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